Tinha um amigo na escola que se chamava Benvindo.
Um sujeito engraçado que gostava de dar uns pontapés na bola, como aliás quase todos os miúdos da nossa idade.
Mas o Benvindo não cabe nesta página, ou se calhar até cabe, porque enquanto dávamos os despreocupados pontapés na bola, o futuro nem nos passava pela cabeça. Ou se calhar até passava. O futuro era aquilo mesmo.
Aquela bola, que nem sequer era de cabedal porque essas só as víamos nas montras das lojas desportivas, era o presente, e o futuro o que lhe ia acontecer a seguir. O passe que sairia certo, o golo que se marcaria ou não, a grande defesa do puto gordo que quase sempre era “convidado” para assumir o papel do guarda-redes…
O futuro era o imediato porque preocupações eram para os mais velhos e, normalmente até nos passava ao lado, como os passes do Augusto “abençoado” com dois pés esquerdos que lhe tiravam qualquer oportunidade de passar uma bola decente.
O único que jogava mesmo bem era o Paulo. Sim, esse mesmo, que um dia brilhou pelos palcos do futebol mundial, mas que nessa altura nem sequer sonhava ou queria saber de voos tão altos.
O Benvindo só aparece nesta história porque, ao contrário do habitual, comecei este texto pelo título, e o resto saiu assim, de estalo, sem pensar.
E, por vezes, assim é que está bem.
O meu filho mais novo atravessa a fase que eu partilhei com o Benvindo, o Augusto e o Paulo.
E eu planeio estar por perto. Dele e das minha filhas, onde num país sem tradição de futebóis, até são as mulheres que dão lições de pontapé na chincha aos homens.
O que até nem foi o meu caso. O meu instrutor do curso de treinador de futebol foi um americano bom de bola, que também os há por cá, que teve que aturar a minha pausa para tomar a injecção diária de Copaxone e um comprimido para as tonturas.
Lá o raio da Esclerose Múltipla teve que enquisinar o primeiro dos três dias do curso que tirei para o meu filho levar comigo mais umas horitas como treinador adjunto da sua equipa.
Isto, meus amigos, porque a Esclerose Múltipla pode ser uma doença sem cura, mas não é nenhum bicho papão.
A vida continua, para não dizer a luta continua, até porque neste caso a vitória nem sempre é certa.
Mas mesmo nos tempos do pontapé da bola, quando em miúdos não nos preocupávamos com o futuro, eu, o Benvindo, o Augusto, o Paulo e o gordo na baliza, também não sabíamos se o jogo ia ser ganho ou perdido, e não era por isso que deixávamos de o jogar.
Espero que esta página sirva para fazer de todos nós, especiais porque a Esclerose Múltipla nos decidiu atazanar o sistema, uma fonte de inspiração e ajuda para os novos intervenientes neste jogo de resultado incerto.
Um abraço
Rui Geraldes
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